quarta-feira, fevereiro 28, 2007

"O último oleiro de Fazamões"


Dizia Alberto Correia no artigo que dá o nome a este apontamento: "Joaquim Ribeiro de Alvelos é o último oleiro de Fazamões. (...) Aprendeu a arte com o pai. Foi magro ganha-pão de uma vida inteira. (...) Não tem mesmo aprendizes. A gente lê nos olhos dele a pena que lá existe porque ele pressente que a arte vai morrer, um dia, em Fazamões." (in Beira Alta, vol. XXXIX, 1980 p. 243)
A profecia cumpriu-se. Já não há oleiros em Fazamões. O chiar da roda, que o Sr. Joaquim Alvelos dizia ter quinhentos anos, calou-se de vez... Não o conseguimos levar a Boassas, fazer uma demonstração de cozedura na "soenga". Não mais poderemos fazer excursões à sua impressionante oficina, onde repousavam as peças à espera de cozer e ainda todos os utensílios, que ele próprio fabricava. Não mais aprenderemos as histórias e truques, de verdadeiro mestre que, sempre com um sorriso nos contava. Esperemos que o seu espólio não se perca e que, pelo menos a sua roda seja guardada, como memória de uma arte milenar que, quiz o destino, fosse o Sr. Joaquim Alvelos o último representante. Até sempre Sr. Joaquim... e muito obrigado.

4 comentários:

Ana Rosa disse...

aqui em Sao Miguel, Açores, Vila Franca do Campo, esta história está prestes a repetir-se.
Eu tenho tentado arranjar maneira de por algum aprendiz, com o Mestre João Rita, o ultimo oleiro de São Miguel, mas as entidades regionais, mais concretamente, parece que neste país não há leis que defendam os interesses dos oficios ancestrais...é pena que um dia todas estas técnicas se perdam.
sugestões para mudar o panorama aceitam-se...
obrigado,
ana

T_R disse...

Tive o grande prazer de conhecer esse Senhor,o meu pai nasceu e foi criado na linda terra desse Senhor,chamada Fazamões.Muitos dias passei a seu lado vendo fazê-lo pucaras de barro,tinha muita talento naquelas mãos,foi uma pena e uma grande perda para a sua terra,a sua gente e a olaria em Portugal,Um grande abraço e um até sempre REI,como era chamado.

Anónimo disse...

No momento actual, nada mais há a fazer que pensar sobre o que vai perdendo em termos de cultura de um povo - caso de Fazamões - porque quando um povo perde a sua cultura, também, perde a sua identidade.
Estou admirado pelo facto de não haver quem queira continuar a obra do oleiro Joaquim Alveolos. Nem sequer há cursos para tal ofício quanto mais seguidores. Bons tempos estes que vivemos. Artes cada vez mais perdidas em favor de áreas que em nada representam o património quer do povo quer da tradição que em todo o lado está votada ao ostracismo pelas novas gerações.

Cerveira Pinto disse...

Caro "anónimo"
Antes de mais o necessário reparo quanto à publicação de mensagens anónimas. Peço, mais um vez, o favor de que todos os comentários se encontrem devidamente identificados, sob pena de os mesmos não virem a ser publicados. Abre-se (mais) uma excepção atendendo ao carácter pertinente das observações. De facto este país está-se a transformar num subproduto de pseudo-cultura de pacotilha, dando-se ao luxo de perder as suas tradições mais genuínas e seculares. As novas gerações são apenas aquilo que fazemos delas e se elas "votam ao ostracismo" a sua própria cultura isso em grande parte se deve à forma como são formados e educados - à própria cultura vigente. Se na escola se dá mais importância ao "Magalhães" que a estes aspectos culturais, o que se poderá esperar?...
Bom... fico-me por aqui, que o tema é muito vasto e corro o risco de me alongar demasiado. Obrigado pela participação neste espaço. Volte sempre (mas desta vez sem anonimato).
Manuel da Cerveira Pinto